Daniela Arbex no Viagem Literária

A jornalista participou de um bate-papo do Módulo Adulto e detalhou processo de escrever o livro 'Holocausto brasileiro'.
Crédito: Equipe SP Leituras
Crédito: Equipe SP Leituras

Nesta quinta-feira, 31 de agosto, a escritora e jornalista Daniela Arbex esteve presente na Biblioteca Municipal Nair Lacerda, em Santo André, para um bate-papo do Módulo Adulto do Viagem Literária 2017. No encontro, detalhou processo de escrever o livro Holocausto brasileiro, contou as histórias e os dramas das pessoas que foram internadas forçadamente em um hospital psiquiátrico em Minas Gerais entre os anos 30 e 80 e ainda respondeu aos questionamentos dos participantes.

Daniela é jornalista e trabalha há mais 20 anos no Tribuna de Minas, onde é repórter especial – tem mais de 20 prêmios nacionais e internacionais de jornalismo. O Holocausto brasileiro é um best-seller com cerca de 300 mil exemplares vendidos, no Brasil e em Portugal. Foi eleito Melhor Livro Reportagem do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) em 2013 e segundo melhor Livro Reportagem no Prêmio Jabuti (2014).  Gerou um documentário homônimo produzido pela HBO e exibido em mais de 40 países.

A reportagem resgata uma história esquecida: a barbárie e a desumanidade praticadas no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena, onde eram mantidos em condições sub-humanas: dormiam no chão, em camas feitas de palha, e morriam de choque, fome, frio e das mais variadas doenças.

As estatísticas não são precisas, mas estima-se que pelo menos 60 mil pessoas morreram lá. Foram internadas à força e boa parte sequer tinha diagnóstico de doença mental: eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, meninas que perderam a virgindade antes do casamento, esposas que foram enviadas para lá para que o marido pudesse morar com a amante. E, ao menos, 100 crianças.

Daniela fez uma reportagem para o jornal em 2009 e se chocou com a história. A partir de 2011 resolveu investigar e – com ajuda de familiares – pagou a pesquisa e as viagens semanais para Barbacena.

Contou com a ajuda de jornalistas como Luiz Alfredo, que trabalhou na extinta revista Cruzeiro, e Napoleão Xavier: ambos fotografaram o hospital enquanto ele funcionava. Encontrou com o cineasta Helvécio Ratton, que havia denunciado os maus-tratos anteriormente. Encontrou também alguns pacientes: gente como Machadinho, Sônia e Cabo que lhe detalharam o horror e a rotina no local. Falou com os filhos das internas, bebês retirados à força de suas mães. Se encontrou com psiquiatras, familiares das vítimas e ex-funcionários do Colônia.

Crédito: Equipe SP Leituras
Crédito: Equipe SP Leituras

Diz que até hoje, quatro anos após a publicação do livro, recebe ao menos um e-mail por dia de gente que quer localizar parentes e conhecidos. Descobriu ainda que o hospício comercializava ilegalmente cadáveres para faculdades de medicina de Minas Gerais entre 1969 e 1980, entre elas a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

E falou que apesar de todos estes fatos, a reforma psiquiátrica no Brasil só foi aprovada em formato de lei em 2001, mais de duas décadas depois do fechamento do Colônia. E que haviam hospitais similares, que usavam as mesmas técnicas e procedimentos, espalhados pelo país. E mais: ninguém foi responsabilizado por seus atos.

“É difícil individualizar ou atribuir a culpa alguém. Trata-se de um processo que aconteceu ao longo de quase meio século. O governo de Minas Gerais já reconheceu o erro. Acho que o livro traz um importante papel de transformação e de conscientização. Se a gente mudar as futuras gerações, já está bom. A gente tem que se colocar nos sapatos dos outros. E entender que a dor do outro não pode ser ignorada”, disse no evento do Viagem Literária.

Crédito: Equipe SP Leituras
Crédito: Equipe SP Leituras

No encontro, a jornalista comentou sobre seu mais recente lançamento, Cova 312, que aborda a morte de um militante na ditadura, livro que venceu o prêmio Jabuti de 2016. Conta a história real de como as Forças Armadas torturam e mataram um ativista político, sumiram com seu corpo e forjaram um suicídio. Reconstitui o calvário do jovem, de seus companheiros e de sua família até sua morte e desaparecimento. E continua investigando até descobrir seu corpo, na anônima cova 312 que dá título à obra.

Para o gerente da rede de bibliotecas de Santo André, Vitor Hugo Moraes, o bate-papo foi muito importante. O gestor conta que a cidade está estruturando um novo projeto para o setor de bibliotecas e que eventos que tem a projeção e o valor do Viagem Literária ajudam neste processo. “Este tipo de palestra é de suma importância, ressalto o quilate desse encontro e a escolha da temática”, ao comentar que Santo André vai promover uma Oficina de Escrita Criativa e a complementar com um clube de leitura.

Crédito: Equipe SP Leituras
Crédito: Equipe SP Leituras

O voluntário da oficina é o professor Sérgio Simka, que tem mais de 45 livros publicados sobre gramática. Ele ressalta que a presença do Viagem Literária na cidade é muito importante e que estruturou o curso em seis encontros – as aulas acontecem entre os dias 16 de setembro e 11 de novembro. A atividade já é um sucesso: as 25 vagas estão esgotadas e a biblioteca tem a intenção de abrir mais uma turma em 2018.

“Quero usar um pouco do conceito da Pedagogia do Encantamento, onde temos que saber quem é esse escritor, fazer ele ter a crença, que acredite no seu potencial. A partir daí, vamos colocar em prática os exercícios sugeridos pela Noemi Jaffe na capacitação do programa”, finaliza Simka.

Crédito: Equipe SP Leituras
Crédito: Equipe SP Leituras

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *